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DE OCEANIS

Perco-me…

Perco-me na sinceridade dos sentimentos sem olhar para a escuridão em meu redor, mas é ela que se entranha em mim cada vez que perco uma lágrima... Lenta como uma pena solta ao vento, avança por entre a pele, anestesiando a pouca alegria que me resta. E assim me torno cadáver… Transpiro escuridão.

Após celebrar a minha súbita inexistência, confronto o que resta de mim, buscando por supostas respostas a alegadas perguntas, certa de não ter perguntado nada a mim mesma e com a certeza de nunca vir a encontrar os porquês.

Inúmeras horas passadas sobre o silêncio fazem de mim aquilo que sempre fui, mesmo que ninguém mais se aperceba disso... Impetuosa e profunda… mas não tão funda e cruel como o oceano…

Apanhada por uma onda sem pedir, tento nadar... A cada instante que se consome, a corrente move-se contra mim, ouvindo o meu choro mas ignorando o meu peso… Sinto-me frágil como nunca, mas não ao ponto de perder a minha essência, de abdicar do que me faz ser Eu.

Bem sei que estou numa praia isolada, onde ninguém jamais me poderá alcançar e onde o sono não existe... Cada hora é passada a contemplar o horizonte, na esperança do nascer de uma nova aurora. Repetem-se versos quebrados na minha mente, entoando um “se” sibilante e eterno.

Escolher não é ganhar tudo… é, mais do que tudo, perder algo. Gosto de me sentar junto ao mar, de lhe oferecer o que tenho... foi essa a minha escolha, nunca esperando que, um dia, o mar não seria capaz de partilhar o meu dicionário… página por página, apagou as palavras que tanto significado tinham para mim.

“Não foi por mal.”

Claro que não… ninguém ama por querer e eu amo o mar. Se um dia encontrar um livro em branco, enterrado algures entre recordações, reescreverei cada uma das palavras e os seus significados. Vivê-las será um desafio, outra será mostrar-tas novamente sem que as apagues com o teu sal…

Enquanto chovem tristezas e o sol se recusa a despertar, talvez possa viver junto às águas tranquilas, molhando os pés na brancura dos sonhos passados mas sempre com este aperto no meu peito... o da incompreensão.

“Um dia perceberás.”

Não durmo. Há muito que perdi esses momentos, bem como os sonhos que vinham anexados às cartas nocturnas que recebia. Agora só tenho sobressaltos… Estremeço com o esvoaçar das aves e com o deslizar das nuvens, porque não tenho como me abrigar do vento.

Medo. Deve ser esse o fantasma que se ergueu em mim… e eu nem o vi chegar. Não sei se ame a água ou se me entregue à terra... não sei se receie a terra ou se tema a água...
Só sei que...
Agora sei que...
Mas quem mais quererá saber...?

Estranho… o ruído que sai do meu peito tem aumentado de volume. Questiono se será normal ou se deveria procurar um especialista… Haverá algum relojoeiro que perceba de corações? Acho que devia haver… relógios e corações são como almas gémeas. Fazem tic tac tic tac… dão voltas e voltas em vão… têm uma forma especial de medir o tempo… param sempre onde começam… e nem todos os sabem ler.

Vou fechar os olhos para ler melhor as horas que ele marca. Sempre considerei que as coisas mais importantes na vida não se vêem de olhos abertos. A instantaneidade da visão asfixia o tempo da reflexão… e eu gosto de saborear lentamente cada momento, de pensar nele com carinho e severidade antes de colocar no arquivo.

É um longo arquivo, cheio de recantos húmidos e escuros, mas sobretudo de ruas que se movem em círculos… acho que se entrar nele sem um mapa acabo por me perder. Sim, é isso que me acontece vezes sem conta. Perco-me… e nem sempre me acho.

O meu mal é não ter comprado uma bússola decente antes de ter partido nesta viagem, mas também não devo ser a única a cometer esse erro. A ânsia de conhecer mundos novos é tamanha que nem reparei nas letras pequeninas gravadas na “caixinha de rumos”.

Keep in a dry place.

Agora percebo porque me perdi… andei à chuva, mergulhei no mar, senti a neve no rosto, mas nunca pensei que esses pequenos prazeres me pudessem causar tamanho mal. A bússola esteve sempre na minha mão… Agora pouco importa. Apanhei um resfriado de alma e fiquei a olhar, inerte, para uma bússola sem conserto.

Poderei eu esperar o retorno da coragem ganha durante uma vida...? Saberei eu escolher o momento para de novo me atirar ao mar...? A onda que me levou... a onda que me trará... ou talvez não... No mais invernoso dos dias... das duas uma, ou perco a vida ou ganho um novo ânimo por ela...
©2005-2009 ~Tenebra
:icontenebra:

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Comments


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:iconajota:
Não... não vou conseguir comentar... Não saberia escolher as palavras certas e...
"Escolher não é ganhar tudo… é, mais do que tudo, perder algo"...

Não, não escolho...
**
:icontenebra:
A vida é uma escolha em cada momento... não há maneira de escapar a esse sofrimento. No entanto, podemos sempre ponderar muito bem antes de tomar uma decisão, calculando os efeitos que essa acção poderá na nossa e nas vidas de quem nos rodeia.
Aceito o teu silêncio linguístico como um elogio. Por vezes também me faltam palavras para comentar certos trabalhos que vejo. O que é importa mesmo é gostar do que temos à frente... Obrigada! :)
:iconsilent-polyglot:
O-R-G-U-L-H-O-M-E

--
Satan stole my Gummi Bear
:icontenebra:
E eu agradeço...
:icondarkwoods:
Belissimo!
Os meus parabéns :hug:
:icontenebra:
Fico agradecida e também emocionada, pois este é um trabalho muito especial para mim. :blowkiss:
:icondarkwoods:
Espero ler mais trabalhos escritos por ti! :)
:icontenebra:
Oxalá que sim... espero é que sejam menos dolorosos do que este. :p

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January 28, 2005
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